Filmes

Entre Mulheres

  • Titulo original: Women Talking
  • Ano de lançamento: 2022
  • Genero: Drama
  • Duração: 104 minutos
  • Nacionalidade: EUA
  • Censura: 14

Confira abaixo a resenha crítica realizada pela associada e promotora de Justiça, Daniella Sanrini Bassa.

Vi o filme ontem, sozinha. Depois, fui inquirida. 

- Sobre o que era o filme que você viu?

 - Mulheres de uma comunidade menonita estavam sendo dopadas e abusadas sexualmente. Os agressores foram descobertos e os homens saíram da comunidade para pagar sua fiança. Enquanto isso, as mulheres votaram sobre o que deveriam fazer. Como a votação ficou empatada, algumas representantes de duas famílias foram escolhidas para decidir se fugiam ou ficavam e lutavam. 

- Que tragédia, que horror, porque alguém assistiria a um filme assim? 

Cinema é contar uma estória. Num lugar escuro, um ponto focal. Como em um útero, a luz ilumina por onde se nasce para a própria história. Porque o bom cinema é arte, produz deslocamento do espectador, cada um de sua forma singular. Saídos daquele lugar, damos início a um novo sujeito. 

Sarah Polley sabe disso. Também atriz, é a diretora do lindo “Longe Dela” e do não tão lindo “Alias Grace”, este inspirado na obra da igualmente canadense Margaret Atwood que é a autora do obrigatório “O conto da aia”. Uma mulher que concorre ao Oscar como roteirista de um romance escrito por uma mulher, Miriam Toews. Um filme que concorre ao Oscar produzido por duas mulheres, elas próprias premiadas anteriormente. 

Poucas sabíamos disso antes de lermos sinopses e comentários sobre o filme que vimos hoje. No entanto, não estamos diante de amadoras. É Hollywood, é indústria, é dinheiro e dinheiro não se joga fora. Embora Brad Pitt até tenha um certo lastro, afinal a produtora dele se chama Plano B, se alguém me falasse de Dede Gardner eu não saberia localizar quem é. 

Além dela, também é produtora Frances McDormand, que não precisa de mais de quatro cenas para impor sua personagem no filme, repleto de atrizes habilidosas como Clare Foy e Rooney Mara. 

Repleto. É o que o filme é. Pleno. De diálogos, triálogos e multiálogos. Muitas vezes desejei ter um botão de pause ou o comando de câmara lenta, para absorver melhor o que se dizia. Porém, essa não foi a opção da diretora. Que, aliás, recheou o filme para que ele nos absorvesse e não o contrário. 

Muito se comentou da direção de arte e de fotografia. O tom esmaecido, sépia, da maior parte das cenas, que de início causa desconforto, ajuda a suavizar o conteúdo delas, traz aquela ideia de passado, que depois descobrimos irreal. E como não, pois é não só uma temática atual, como atemporal… Ainda assim, há diferença de luminosidade entre o galpão e o interior das casas. Há diferença de luminosidade entre o dia e o entardecer. E descobrimos que, quando a noite chega, se enxerga no negrume, o que era inimaginável no começo. 

Assim é que a luz em si faz a jornada do herói. Retrata o enredo. O chamado arco dramático clássico, em que alguém inexperiente em algum assunto leva consigo suas poucas ferramentas e empreende uma viagem na qual lhe aparecem obstáculos. Para superá-los, se faz inimigos e aliados, há um aparente fracasso, reviravolta e, por fim, se chega a ser o que de certa forma predestinado estava.

É o que ocorre com aquelas mulheres, encerradas num paiol. Encerradas numa comunidade em que não são parte da ’coletividade’, a que decide. Encerradas num tempo sem máquinas, sem tecnologia. Encerradas no seu próprio torpor quando violadas. Encerradas em seus corpos dos quais não podiam falar. Encerradas em sua incapacidade e assujeitamento. Até que não. 

A religião é a lei. Porém, tal qual as brechas de luz permeiam as tábuas do celeiro, aqueles seres pensantes encontram as brechas que sua fé permite e até exige. Tal qual as éguas, aquelas fêmeas tinham diante de si os três efes (freeze, flee, fight). 

Nunca paralisaram. Descobriram como votar porque necessitavam dar voz às suas semelhantes. 

E aí sim. Women talking! A trama se abre. 

De onde isso veio essa decisão democrática? 

Já estava lá! 

Ao longo da conversa ENTRE MULHERES transparece os laços que elas já possuíam entre si. Lembro da cena, depois retratada em ilustração, das duas adolescentes trançando os cabelos misturados. Outra cena, em que Salome é consolada por todas as outras, compondo um quadro renascentista. Mais uma, em que a filha de Mariche cai aos pés da mãe ao saber de todo seu sofrimento. E o pedido de desculpa da mãe de Mariche por não ter protegido a filha da maneira mais eficaz, mas apenas da maneira como conhecia. 

Essas mulheres não estavam simplesmente passando e pararam para conversar. Elas sempre falaram entre si, mas a profundidade da dor trouxe a profundidade da troca. Mesmo a personagem de Frances fala com a filha e a neta, que é cega, sem abrir a boca. 

A mãe de August fazia isso e fazia bem, tanto que sua família saiu de lá. O homem que o filho dela se tornou, tornou à origem por amor. Amor do qual abdicou ou sublimou para se manter ali, mesmo sem Ona, a quem admira na mesma medida em que ela ama a todos, inclusive o bebê fruto de seu estupro. Sua criação certamente foi o que lhe permitiu isso, foi o que lhe salvou do suicídio. Criação que quer replicar com os alunos, que já está replicada em Salome quando usa o instrumento do crime no próprio filho para levá-lo consigo. 

Os menonitas acreditam em pacifismo e em trabalho duro. São rígidos, mas preferem o batismo na idade adulta. Em algumas colônias a homossexualidade é aceita. 

As linhas de fuga daquela situação, através da escuta e do afeto, da aceitação da particularidade de cada uma no decorrer da conversa, se transformaram em linhas de força. 

Quando se concentraram no propósito em vez da dificuldade, elas ganharam coragem e clareza para a condução com segurança de seu veículo no mundo.

Que possamos nós também replicar isso na nossa própria vida ao sair do cinema, sozinhas e juntas. 

Seja na Manitoba da Bolívia, seja na do Canadá. 

Onde tenhamos um Cruzeiro do Sul pra nos guiar ou onde ele não apareça, mas a “fértil imaginação feminina” garanta a fé nele.

Trailer:

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