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ARTIGO | Morreu a Marília Mendonça. Mas quem era Marília Mendonça e o que ela tem a ver com o feminismo?

Leia o artigo da associada Samia Saad Gallotti Bonavides
19 de novembro de 2021

Neste mês de novembro de 2021, a associada Samia Saad Gallotti Bonavides, Procuradora de Justiça, escreveu o artigo “Morreu a Marília Mendonça. Mas quem era Marília Mendonça e o que ela tem a ver com o feminismo?”. Boa leitura!

 

Morreu a Marília Mendonça. Mas quem era Marília Mendonça e o que ela tem a ver com o feminismo?

Samia Saad Gallotti Bonavides¹

 

Não foi uma, nem foram duas mulheres de diferentes gerações, que tiveram a mesma impressão de estar meio por fora dos acontecimentos do mundo musical, quando souberam da morte daquela “cantora famosa e compositora igualmente talentosa”, que morreu num terrível acidente aéreo em 05 de novembro deste ano de 2021.

Mas aquelas que foram surpreendidas com o nome e a imagem, já vista eventualmente, mas não muito percebida, nem claramente conhecida e reconhecida, não estavam, talvez, apenas por fora apenas dos assuntos musicais do momento. Há também o desconhecimento a respeito de alguns temas muito relevantes que interessam a um específico público: como influenciar uma multidão majoritariamente composta de meninas e mulheres; saber mobilizar sua atenção e consciência; provocar o empoderamento delas sobre temas importantíssimos para a emancipação feminina, entre outros. Estas ideias, consideradas uma verdadeira revolução feita pela cantora e compositora Marília Mendonça, veiculavam formas de como seria possível sair de algumas armadilhas machistas engendradas pela cultura patriarcal. 

Suas letras de música tinham mensagens diretas e empáticas sobre como uma mulher pode “dar a volta por cima”, sendo bem adequado dizer que vivemos numa cultura que não se importa muito com o sofrimento da mulher, porque ele não é valorizado e seu enfrentamento chega a ser tímido, eis que, se fosse considerado algo realmente relevante do ponto de vista social, a violência doméstica e o feminicídio, por exemplo, seriam objeto de outra espécie de abordagens. Teriam que ser tratados como um dos mais sérios e urgentes problemas sociais, que requerem a elaboração de políticas públicas integradas e interseccionais, envolvendo diferentes setores governamentais, com investimento público compatível com tal importância, tanto por meio de recursos econômicos como humanos, o mesmo sendo dito em relação à sociedade civil, tudo isso num concerto mais melodioso e harmônico.

Ao contrário, o que temos articulado é uma resposta punitiva, considerada por muitos como boa e adequada, mas que é reiteradamente percebida como ineficaz, principalmente quando vem desacompanhada das práticas sociais que efetivamente tenham potencial transformador, aptas a promover a pedagogia da libertação da mulher quanto a estes padrões patriarcais e machistas, que são tão provocadores de desequilíbrios democráticos e malefícios para toda sociedade.

Nesse terreno das mensagens e da subjetividade construída pela ideologia de gênero, retratando a mulher como aquela a quem está afetado o espaço doméstico, na condição de “rainha do lar”, cujo reinado tem que ser desempenhado com uma gestão eficiente e indelegável, sob pena de imputação de improbidade familiar, é importante desconstruir e desconstituir a subjetividade imposta por este padrão.

E isso porque aí há um erro de visão. O que é preciso ser dito é que, se a insistência for a de persistir na imposição de subjetividades, que elas sejam capazes de produzir consciências coletivas e participativas nas responsabilidades sobre a condução e perpetuação da vida sobre a terra. Porque questões relacionadas à família, consideradas quaisquer de suas formatações modernas (todos os casais possíveis ou mesmo as monoparentais) dizem respeito a maneira de organizar o nosso cotidiano como sujeitos humanos racionais, dotados de sensibilidade e sentimentos, e, por óbvio, deveriam ser questões que afetassem a todos, não havendo que separar quem é o “mais responsável pelo que”. 

Há necessidade de mudar esta concepção existente, ainda que se a considere não explícita, de que quando a mulher reivindica um lugar no espaço público, para também ocupar o “reinado da política”, “o do ministério público ou o da magistratura”, isso significa dizer que ela esteja invadindo território já colonizado por outras “soberanias”, cujas regras são imutáveis, considerando-se, por extremo equívoco interpretativo, que houve infringência de regras em terreno cultural e politicamente já antes demarcado. Mas para que aconteça a mudança, de uma forma plena e em situação materialmente igualitária, faz-se necessário alterar a episteme, provocando, na linha do pensamento de Michel Foucault, uma drástica ruptura epistemológica que seja capaz de abolir a totalidade dos métodos e pressupostos cognitivos anteriores. E como se faz isso?

São regras que precisam ser refeitas, mas, para isso é preciso que consciências sejam forjadas numa outra sintonia, que se saia da visão individual para a visão coletiva da vida e dos encargos relativos à sua manutenção. E, como esta tarefa requer, efetivamente, uma gama de cuidados, alguns dos quais precisam estar afetados mais diretamente à mãe, como ocorre com a atenção materna nos primeiros anos de vida, e principalmente, pelo menos no primeiro ano de vida da criança, relacionados ao aleitamento, ou como também acontece com as condições específicas do período de gestação, por exemplo, esta reflexão precisa chegar no ponto certo de equilíbrio.

O fato de que muitas destas situações sejam uma condição vivenciada obrigatoriamente pela mulher, não significa, em hipótese alguma, que seus encargos tenham que ser suportados unicamente por ela, porque existem maneiras deles serem compartilhados com sua respectiva comunidade, por meio da superação da ótica que, de regra, se restringe à imputação de responsabilidade individual a ela, quando tem que ser coletiva, porque é uma responsabilidade social, que tem que ser dividida. 

Todas estas são questões realmente relevantes a respeito do nosso estar no mundo, nisso constitui a importância dos concertos civilizacionais, para além de apenas naturalizar papéis sociais que impõem uma tribulação que gera desigualdades de esforços, em questões que realmente importam, mas que, se não forem bem distribuídas, sempre irão implicar em sérias e reais situações de desigualdade substantiva, quebrando a equidade social. Todos nós já reconhecemos que isso não é justo.

Marília Mendonça encontrou um canal, uma sintonia, para mostrar como driblar as desilusões amorosas vivenciadas por um público feminino, que ainda tem dificuldade de se impor e de superar as consequências decorrentes destas subjetividades moldadas num padrão que não se importa muito com a “sofrência” feminina. Até porque, quem compreende o mundo, pela perspectiva machista, como um espaço “seguro” e privilegiado para as mulheres poderia questionar: sofrer por quê? sendo a “rainha do lar”, recebendo flores e enfeitando lugares?

A visão correta a esta conjuntura de significados e significantes muito vazios de um conteúdo capaz de representar a necessidade que temos de justiça social, é muito outra. Há necessidade de potencializar, isso sim, ações e políticas corretas em relação às questões de gênero, raça e desigualdade social, como temas vinculantes de toda atividade humana tendente a contribuir para o avanço civilizacional, porque quando eles são conjugados e se apresentam juntos na  guerra cultural, aparece a face mais cruel de um sistema excludente que não atinge só as mulheres, mas que atinge principalmente as mulheres, e dentre elas, de maneira mais eloquente, as mais vulneráveis, mas o fato é que atinge a todas. 

As posturas que visam demarcar o “reinado do lar”, entregar buquês de flores e criar um papel decorativo para o público feminino, sublimam circunstâncias profundas e arraigadas de um panorama cuidadosamente moldado pelos padrões patriarcais, cuja superação tem que ser uma conquista doutoral da revolução feminista, por meio de uma profunda mudança de cultura, construindo um estado de coisas que corresponda ao “novo normal”, que não seja obscurantista e nem acolha visões românticas, nada contributivas ao ativismo feminista, que é legítimo.

Não tem mais uma Marília Mendonça para interpretar esse desejo dos âmagos femininos, e nem para levantar seus egos e auxiliar neste caminho de forjar consciências, no caso, por meio de poderosos acordes musicais. Continuamos dependendo de nós e daqueles/daquelas que precisam ser sensibilizados e preparados sem cessar, para essas fileiras muito representativas de temáticas do século XXI, mas o fazendo de forma compreensível para quem nele vive neste momento histórico. 

Precisamos então, de, com muita inovação e criatividade (artística inclusive), encontrar este tom, escrever estas letras, cantando com voz forte e segura as músicas que nos auxiliem a sair dessa sofrência existencial, tão bem retratada, tantas vezes por outra grande mulher, mas do século passado, num nicho mais acadêmico, que foi Simone de Beauvoir. Ela vivenciou diferentes apelos, com bem menos tecnologia, isso para dizer que temos que estar atentos aos instrumentos próprios de nossas respectivas conjunturas históricas. 

Isso implica em transitar arqueologicamente, pelos vários fragmentos de experiências e conhecimentos, visando obter uma unidade reveladora. Podemos ler livros e artigos, escrevê-los, ver peças de teatro e filmes, escutar músicas, assistir às lives, para assim ter acesso a um vasto conteúdo que nos auxilie a enxergar como são moldadas as sutilezas da dominação masculina, esta que não é motivo de orgulho para muitos homens já bem evoluídos no pensamento e nas ideias, os quais compreendem muito bem sua face mais perversa. Mas, a necessidade que se apresenta é de transformação de práticas, como uma continuidade dessa luta que tanto custou em sacrifícios, quando historicamente se constata o que suportaram as primeiras feministas. 

Hoje, o tema do feminismo não é mais invisibilizado e há como falar dele, discutindo-o publicamente nos mais diferentes espaços, por isso é preciso sempre ir além, por meio de ações e projetos consistentes, principalmente com muita música, muita arte e muita filosofia, de preferência utilizando as plataformas digitais, sendo mulheres desta época, “representantes do” e “sintonizadas no” século em que vivemos.  

Leia aqui o artigo publicado no Estadão.
 


¹ Procuradora de Justiça do Ministério Público do Paraná (MPPR) e coordenadora do Movimento Nacional de Mulheres do Ministério Público.

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